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terça-feira, 29 de maio de 2012

Um ser de Nós

O teu sorriso quando desci quebrou-me as defesas, levemente erguidas até àquele momento.
Quero-te. A fêmea em mim, a loba primitiva, a mulher-sexo quer sentir o peso do teu corpo em cima de si, o teu cheiro misturado no seu, a posse dos sentidos celebrada em êxtase.
Subimos de novo, uma desculpa qualquer murmurada entre esses teus lábios que me tentam. Gosto de pensar neles no monte que me sobe do ventre, mordiscando. E a língua descendo pela colina abaixo.
Conversas banais e risos disfarçados enchem a sala. Tento esquecer o cheiro do teu perfume mesmo ao meu lado, tento preencher com serenidade o espaço que ocupaste em mim. Não consigo.
No espaço curto, fugindo-te, embato na mesa com estrondo. Ao virar-me, vejo os teus olhos em mim, divertidos, e um meio sorriso de canto que acompanha a mão que me massaja a perna dorida.
Calor, calor. Pára, por favor.
Mas vejo que estou calada e que continuas a galgar a distância aceitável que nos separa os corpos. Que agora se tornou diminuta e insuportável. E quente. E molhada.
E pressinto, antes de a sentir, a tua boca procurando a minha, no beijo desejado e temido. Gostoso, que a Deusa nos valha! Se assim não fosse ainda teria desculpa para não te enrolar as pernas à volta da cintura e tu para não me levantares em peso até ao sofá, onde finalmente te sinto as mãos apalpando-me e a boca procurando-me os seios.
Que líbido, que loucura! Afinal também morava em ti este desejo?
E eu, que não o queria ver, morro-lhe agora aos pés. Rendida, aberta, alerta, em pura tesão.
Voam apressadamente as roupas para fora dos corpos, não há sequer tempo para um pensamento, os olhos não se descosem mais um do outro.
Guio-te com sabedoria para dentro de mim e penetras-me, com um suspiro de prazer. Começas a dançar as ancas em cima de mim e eu sinto que passei para além do controlo, para além dos limites, para além do que é aceite, para além do que conheço de mim. Sou tu, e tu és eu.
Sou tu, e tu és eu, e ao som dessa melopeia deixas que o teu sémen escorra para dentro do meu ventre, que as nossas bocas se devorem, que o nosso cheiro se misture e a nossa pele deixe de perceber a quem pertence, até que nos fundimos num ser místico, sagrado, um ser de sexo e de orgasmo.
Um ser de nós.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Afrodite

Ele sentiu-lhe o perfume dos cabelos quando ela se inclinou para apanhar algo, e o velho desejo não satisfeito foi como um punhal cravado no corpo.
Instintivamente inclinou-se para ela, que ao subir não pôde evitar o roçar dos lábios um no outro.
Apanhou-a assim, com os braços segurando-lhe as costas, sentindo a pele quente, procurando-lhe a boca agora com maior certeza e pressentindo o desfazer das defesas dela a pouco e pouco.
As línguas tocaram-se, descobrindo um gosto mútuo a café e mentol.
E a vontade crescendo, latindo debaixo da pele.
O escritório ainda vazio, àquela hora da manhã.

As mãos dele procuraram-lhe o seio direito, com uma urgência que ela nunca lhe tinha visto. Por debaixo do vestido leve de Verão palpitava-lhe forte o coração, misto de medo e volúpia.
O corpo dele pressionado contra o dela lembrava-lhe constantemente do quanto ele a queria, ali, agora, naquele momento tão fugaz no tempo (que escasseava, a cada segundo), naquele lugar tão impróprio para luxúrias carnais.

Mas luxúria carnal era tudo o que ela conseguia pensar no momento, e deixava-se ir na fantasia, nas mãos fortes e rugosas, no corpo trabalhado, no sabor a macho no cio que a pele dele desprendia.

Foram-se encaminhando para a mesa grande, sem nunca se largarem.
Ela encostou-se contra o tampo, ele afastou-lhe as cuecas vermelhas com os dedos e tocou-lhe no clitóris molhado, suspirando.
Ela gemeu e começou rapidamente a desapertar-lhe as calças, libertando o sexo másculo, duro e hasteado.
Conduziu-o sem mais demoras para dentro dela, que em breve aquele inócuo lugar de paixão estaria vibrante de outras vidas atarefadas.

Foi como o ceder de uma ponte durante um terramoto.
A urgência alimentou-os como uma fogueira de consumo rápido, e entregaram-se sabendo que o tempo os atraiçoava deveras.
Mas nem o sentir de barulho vindo do andar de cima os impediu de gozar um orgasmo mútuo tirado às pressas e com vontade, numa cumplicidade não estudada mas que saiu perfeita, assim, cozinhada em lume forte e rápido.

Sacudiram o cheiro um do outro e recompuseram-se mesmo a tempo do "Bom dia" do colega que espreitava, inocente, do topo das escadas.

Depois daquele dia ela não conseguia evitar um sorriso interno de cada vez que tocava na mesa no preciso lugar em que ele a havia possuído e feito sentir fêmea, desejada, poderosa, Afrodite. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Depressa, depressa...

As noites já se me consumiam em fantasias, onde eras presença assídua.
Agora, alarvemente, ocupas-me também os dias, essa tua imagem gulosa assaltando-me a paz, de improviso.

Ao telefone desfio-te histórias inventadas de safadezas e cambalhotas, instigando-te o desejo. Como uma chama, sobe-te depressa pelo corpo acima, e a tua voz desfaz-se na urgência rouca de quem me chama até ti.

Louca que sou, vou.

Abres-me a porta a medo, a vergonha do primeiro encontro estampada na cara, o medo de que a mensagem não tivesse ecoado certa dentro de ti, a excitação de sabermos que nada daquilo, nunca, poderá transpirar para fora das paredes do teu quarto.

São segundos apenas de dúvida, que morre quando o teu olhar ansioso se delonga no meu e encontra o eco da paixão tão refreada.

Quando o teu braço me puxa a cintura para a colar à tua e unes a tua língua à minha, e começo a sentir, ardente, a tua erecção entre as minhas pernas.

Encostas-me à parede.

No misto do medo de sermos surpreendidos, a urgência não se disfarça, e é preciso chegar à meta. Tem de ser agora, tem de ser hoje, ou perderemos para sempre a coragem que temporariamente nos bafejou.

Por isso as tuas mãos percorrem-me agitadas, por isso a tua boca me sufoca com beijos, por isso nos despimos apressadamente no teu quarto, por isso me empurras para a cama e roças o teu sexo em mim, e eu molhada que estou suspiro de pura tesão.

O tempo esgotou-se para preliminares escusados, que o desejo é mais do que o corpo aguenta e os segundos para o prazer se esgotam depressa.

Guio-te até mim, como uma ordem, a mão envolta no teu sexo duro, a outra provavelmente enterrando as unhas nas tuas costas que se inclinam para mim, já não sei, não me conheço, perdi-me no gozo de te sentir a penetrar-me, de te saber tão abandonado quanto eu.

As minhas pernas apertam-se à volta desse teu rabo (que tantas vezes olhei de soslaio, o desejo dissimulado) perfeito, puxando-te mais e mais, animando-te a foderes-me com gosto e profundidade.

Os teus olhos não largam os meus e ambos arfamos na doce violência da entrega, mais depressa, e mais depressa, e devagar, e mais depressa, e os espasmos nos sacodem quando o prémio final se aproxima gigante, possante, este orgasmo tão sonhado e que agora se grita na boca e no corpo, e que temos de calar com um beijo final.

E ouvimos a chave na porta - que felizmente trancaste (...que explicação inventarás tu?) - e a voz inquisidora do lado de fora, e a urgência que acabara de nos deixar volta pelo mesmo caminho, risos abafados vestindo-nos à pressa, tu uns boxers e uma t-shirt ali largadas, eu tentando enfiar o vestido que se recusa a passar-me nos ombros, teimoso, não encontro as cuecas depois terás de as procurar, calço as sandálias enquanto gritas "um momento, vou já", páro-te um segundo apenas para deixar o meu rasto de saliva na tua boca e salto pela janela (graças a Deus que vives num rés-do-chão!) enquanto finalmente abres a porta e balbucias uma desculpa que já não ouço.

Foi por pouco, mas como que me viciei na adrenalina de te comer assim, descaradamente à pressa.
E quero mais.

Vou-me rindo pela rua fora, toca o telemóvel e dizes-me, desavergonhado: "quando me vens ver de novo?"...
Parece que também lhe tomaste o gosto.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Dança da despedida

A tua mão estendeu-se para a minha num subtil gesto de despedida.
Toquei-a, sentindo-me quente.
Nesse preciso instante, os teus olhos mergulharam-me na alma.
E a boca estendeu-se para a minha, naquele que pretendia ser o primeiro e último beijo.

Um encontro leve e molhado abriu caminho para o tempo em que não há voltas atrás.
E soltámo-nos nas asas do desejo.

Colaste o teu corpo ao meu como se te pertencesse desde sempre. Com a avidez das crianças em novas brincadeiras, descobrindo um mundo novo.
As tuas mãos apossando-se de todos os pedaços de mim, a tua língua explorando-me o gosto a canela da boca vermelha.
De olhos bem abertos plantados nos meus, como uma ordem suplicante para que a entrega fosse total.

Em breve o teu sofá era terreno fértil para os nossos amores proibidos.
Rapidamente o meu vestido branco se tingiu de gotas do nosso suor, e os teus calções de cor cinza se colavam nas tuas ancas, mostrando-me o teu sexo duro e hasteado, pronto para se banquetear de mim.

As minhas mãos exigiram o desapertar do teu cinto, o libertar daquele empecilho de roupa que me impedia de te tocar. Assim que o conseguiram, senti vibrar por entre os dedos o teu desejo acumulado, que se rendia a mim.

Suspiraste, aguentando firme as minhas carícias. Querias gozar e fazer-me gozar contigo.

Tiraste-me as alças do vestido e, sem cerimónia, lambeste-me o peito, os mamilos erectos recebendo a tua saliva. Com os teus dedos ágeis tiraste-me as cuecas de renda branca, e começaste a encher-me de humidade. De vontade crua.

Com um impulso, libertaste-te de mim, olhaste-me assim, abandonada e seminua, no teu sofá, sorriste e baixaste-te sobre o meu ventre, onde iniciaste uma dança de língua na minha vagina.

Gritei, agarrando-te na cabeça.
A tua boca chupava-me o sexo, lambia-me sem pudor, mostrava-me que era impossível fugir do tanto que te queria.

Brincaste até ver que eu não aguentava mais.
Nesse momento ergueste-te e entraste em mim por um caminho alagado de suor e desejo.
Seguraste-me as nádegas e empurraste-te para dentro de mim, do centro do meu corpo.

Ambos gemíamos baixinho, envolvidos e entregues ao impulso energético que nos unira.

Uma e outra vez, abri-me e contraí-me para ti, apertando-te entre as pernas que te recebiam.
Uma e outra vez, penetraste-me fundo, possuindo-me, fazendo-me tua. Tua.

Rapidamente sobreveio o momento orgásmico, fundindo-se os nossos corpos, as nossas vozes, com o nome um do outro gritando na garganta rouca, amando-se as nossas almas.

Aí, veio a paz. E reconhecemo-nos, por fim. 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

De amor e de sexo

Olhos cerrados, mãos desalinhadas ao longo do corpo, ela volteava ao som da música, cada nota penetrando na pele, cada pauta fazendo amor com o corpo farto de mulher.
As suas curvas generosas espalhavam-se pela pista de dança enquanto ela, recolhida num qualquer mundo interior onde só a música era rainha, se submetia ao ritmo sensual do DJ.

Do seu canto, tentando compenetrar-se na conversa que circulava pela mesa, ele olhava-a em breves segundos vadios, aqueles em que não conseguia controlar-se... e percebia a gulodice que ela despertava nos lábios dos outros, que não se coibiam de a mirar descaradamente, pedindo-a para si.
Uma raiva surda e absurda carcomia-o por dentro, uma irritação vagarosa que ia subindo pelo estômago acima até chegar ao centro do peito.

Viu quando um dos seus amigos, hipnotizado pela dança da fêmea, se acercou dela, quando lhe tocou no braço e a fez despertar do transe, quando a enlaçou pela cintura e começou a dançar com ela como se sempre o tivesse feito.
Ela sorria, inocentemente. Não se apercebia do efeito que produzia nos outros. Era imune às ondas de desejo que se desprendiam do corpo daquele a quem via como amigo. Estava simplesmente alegre, descontraída e feliz, e compartilhava-o de peito aberto com o Mundo.

Ele agitou-se mais no seu lugar. Era homem, macho, e era-lhe óbvio o que o amigo queria. Ela estava num momento de vulnerabilidade e carência (isso não era segredo para ninguém, o ex-namorado deixara-a destroçada), tinha um carinho sincero por aquele que agora dançava com ela e facilmente se deixaria envolver no clima que ele se esforçava por criar.
E ele, do seu lugar no sofá de couro, agonizava torturando-se com imagens de beijos e carícias que parecia adivinhar já entre os dois.

Pois, não aguentava mais ver aquilo... tinha de apanhar ar, ir-se embora, sabia lá. Aquilo era um martírio. Não podia tê-la, pois claro, nem devia sequer desejá-la (bolas, homem! esqueces-te que tens namorada?), mas não conseguia apagar dos olhos a imagem do sorriso com que o cumprimentara a primeira vez que o conhecera e não conseguia inventar mais motivos que calassem aquela fome do corpo.

Levantou-se com tanta rapidez que o seu copo caiu na mesa, partindo-se com estrondo. Os amigos barafustaram, as vozes atraindo o olhar dela, que se cruzou com o dele, fera ferida em terra selvagem. Algo lhe penetrou o coração desprevenido, um reconhecimento daquele olhar.

Ele saiu rapidamente.

Deixando o amigo sozinho na pista, ela seguiu-o sobressaltada, já não sendo dona dos seus passos. Não lhe suportava a tristeza, nunca tinha conseguido suportar o mais leve queixume daquele homem, a sua dor era como se lhe pertencesse, desde que se haviam cruzado nesta vida. Sufocava a vontade de o abraçar de todas as vezes em que ele, de coração rasgado, vinha desabafar com ela.

Lá fora a noite estava densa, quente e escura. O vulto que tão bem conhecia não se deixava ver em lado nenhum, talvez se tivesse já encolhido em concha, ou esfumado no ventre da noite negra.

Enquanto os olhos dela se tentavam habituar ao breu, uma mão agarrou-lhe no braço e puxou-a para longe, sem cerimónias. Era ele, embora só se visse bem o olhar a chispar e os lábios crispados.

"Que fazes aqui? Não estavas a dançar tão bem lá dentro?"
"... Vi-te sair, vim atrás de ti..."
"Vai-te embora, vai-te divertir, deixa-me sozinho"
"O que tens? Que se passa?"
"Nada"
"... diz-me, por favor!"

Silêncio tenso, palpável, agarrando-se às palavras, aos gestos, à pele.
A dela, arfando debaixo do corpete justo, um convite mudo à língua que ali se queria perder.
A dele, tremendo de medo, ira e desejo, tentando conter o bater rápido do coração que se espalhava pelo corpo todo.

"Gostas dele?" (voz rouca, pedido de menino carente)
"Não."

E...
muito tempo depois........
um tímido..........

"Gosto de ti."
A coragem a crescer na voz.
"Gosto muito de ti. Gosto tanto. Quero-te tanto. Quero-te agora. Foge comigo. Dou-te o meu mundo."

Os sussurros, dentro do ouvido dele. Perdida por cem, perdida por mil, deitava o coração aos borbotões para fora.
"Toma-me. Ama-me, agora, já. Quero sentir-te em mim, agora. Abro o meu corpo para ti." (urgente, ardente, o calor na voz sibilada)

Carregando-a ao colo, levou-a para a areia com cheiro a mar por detrás da grande rocha de pedra que se erguia como um gigante rasgando a beira-mar.
Ébrio, possuído pela tormenta de meses e meses sufocando o desejo, arrancou-lhe o corpete, expondo os seios nús e perfeitos à luz ténue da Lua. Os seus lábios vorazes verteram a vontade no peito dela, enquanto os dedos afastavam a última barreira que os separava do túnel húmido que chamava por ele.

As mãos dela libertavam-lhe o sexo hasteado com orgulho, acariciavam-no, sugavam-lhe a vontade como se sempre o tivessem conhecido assim, nú e vulnerável. Pronto para a trespassar.

Os olhares cruzaram-se, no meio do fogo, da guerra.
As bocas uniram-se com raiva, sugando-se.
Os braços dele prenderam os dela na areia, o corpo dela arqueou-se, as pernas abriram-se num despudorado convite à penetração.
O sexo nú, a saia puxada para a cintura. Abandonada.

Sem pedir licença, ele comeu-a, o pénis duro apertado entre as paredes daquele fruto proibido que o endoidecia.
Primeiro dominado pela loucura da barragem contida, depois embalado no amor recém-descoberto naquele abraço doce e aberto com que ela o envolvia.

No vórtice demorado da entrega, esqueceram-se do mundo, esqueceram-se até de onde começava um e acabava outro. Os corpos suados uniram-se uma e outra vez na areia quente com cheiro a sexo.

Amanhecia quando a saciedade finalmente os acolheu, encontrando-os serenados num amplexo emocionado.

E o Sol disse-lhes olá de cara risonha.



quinta-feira, 7 de julho de 2011

O vestido

De repente dou-me conta que hoje trago o vestido que levei ao teu casamento.
E recordo-me da dança que partilhámos, tu já casado e eu já pensando no desperdício do que podíamos ter vivido e o meu corpo, sem dares conta, a fervilhar perto do teu, enquanto me conduzias devagar ao largo da sala.
De repente dou-me conta hoje, anos depois, tu ainda tão bem casado como na altura, hoje no dia em que estamos os dois no teu sofá e a minha boca te chupa o pénis endurecido, e me dizes bem alto e em voz rouca o quanto me queres, dou-me conta que esta vida é redonda demais para os passos da vontade.
E sorrio, e rio enquanto puxo o vestido lilás para as coxas e me encavalito fundo em ti, e me seguras pelas ancas com gosto e urgência, para a frente e para trás como tão bem sei que te agrada, e te sinto o estremecer final e o rio de sémen quente que agora partilhas comigo, dentro de mim, e me afundo mais enquanto me perco nesta luxúria doce que me une a ti…
Depois sugas-me os lábios como se me quisesses prender a ti num laço invisível que não se quebra pela distância nem por outros quaisquer corpos que se coloquem entre nós, como se me dissesses que há algo em mim que guarda o teu cheiro e sabor, e que há parte de ti que me recorda com amor todos os momentos…

Madrugada

O seio dela subia e descia, no torpor ritmado da respiração adormecida.

À meia luz do quarto, naquela madrugada fria de Janeiro, a pele morena parecia brilhar, iluminada pelo rasgo de lua espreitando timidamente pela cortina da janela do motel.
Lenta e gulosamente, ele olhou-a, relembrando a noite anterior.

Só de pensar crescia-lhe velozmente o desejo por entre as pernas, nascendo de novo a vontade de possuir aquele corpo, aquela fêmea que se lhe unia em desejo, aberta e húmida.

Tinha-a possuído, uma e outra vez, até ambos sentirem o suor como uma segunda pele e o cansaço lhes toldar o olhar.

E, no entanto, poucas horas passadas, mal acordado e olhando-a assim, com o basto cabelo negro lançado na almofada e o corpo maduro atirado na cama, percorria-o já a fome de mais uma vez a fazer sua.

Cuidadosamente, colocou os dedos, ao de leve, no estômago liso. Ela não se moveu, perdida talvez em sonhos aconchegantes.

Sem um som, ele moveu-se com cuidado, colocando-se por cima do corpo dela, mas sem lhe tocar... os dedos subiram ao seio que cantava à lua, iniciando o toque. Meio a dormir, ela sentiu-se tocada, reconhecendo imediatamente o calor, a geometria daquela pele.

Afastando-lhe docemente as pernas, ao mesmo tempo que intensificava a pressão dos dedos no peito, ele soube que ela havia acordado. O corpo dela, quente e ainda dormente, aconchegava-se às suas carícias, contorcendo-se ligeiramente, num imperceptível sinal do gozo antecipado.

Molhando os lábios, ele começou a desenhar traços de saliva na barriga dela. Os dedos desceram-lhe às virilhas, passando ao de leve. O corpo nervoso dela denunciou o desejo que se acumulava. Continuava de olhos cerrados, mas a tensão era já visivel na postura de convite que as pernas, abertas, faziam.

Desceu a língua, mais. Movimentos espirais humedeciam-lhe (como se fosse preciso, molhada como ela estava, pronta, de imediato, para o receber no seu colo!) o sexo, desciam os dedos, abriam-na mais...

Num repente, enfiou-lhe os dedos, sentindo o corpo dela arquear-se de imediato. O prazer que lhe sentia enrijeceu-lhe o sexo e acabou de o enlouquecer. Gostava de a sentir assim, nas suas mãos, massa de barro para ele moldar no seu desejo.

Com a língua, massajou-lhe o clitóris, e sentiu-a gemer. Ela agarrou-lhe na cabeça com força, encostando-o mais contra si, misto de pedido e ordem, excitando-o. Era agora ela quem se arqueava facilitando a penetração dos dedos e a língua que, cada vez mais depressa e com mais força, a enlouquecia.

Sentia-a estremecer, era altura.

Não conseguia mais esperar.

Separou-se dela perseguido por um meio queixume da sua boca, e imediatamente lhe abriu com força as pernas, penetrando-a sem aviso. Ela gritou, mas no seu grito ecoava o nome dele e todo o desejo que lhe consumia o corpo.

Finalmente, abriu os olhos, para lhe pedir, sem palavras, que a deixasse ser a mestra, e ele o aluno.

Sorrindo, ele deitou-se docemente na cama, puxando-a para cima de si, e sentindo-a enterrar-se na carne molhada do seu sexo.

Puxando-lhe as mãos para trás, ela fechou os olhos e iniciou a sua dança, que ele tão bem conhecia. Cada centímetro do seu corpo entregue ao acto de ter e dar prazer, cada pedaço de pele transpirando o desejo que lhe tinha.

Juntos, perdidos, uma vez mais, subiram a escalada febril até ao orgasmo, num grito surdo de mistura de sabores, sentidos e vontades, vagueando no limbo embriagante do prazer...
Acabada a dança, corpos exaustos, lado a lado, desenham o futuro com os dedos das mãos...

As luvas

Pedes-me que as calce, em voz de queixume.

Elas, as malditas, o teu objecto de desejo, pousam discretamente, como que alheias, na mesinha de bambú que mora na meia penumbra do canto.

Gosto de ver-te o desejo na boca, gosto de sentir-te o pedido no olhar.

Gosto que me gostes com elas calçadas, quando me sinto forte e te excito assim, na pose musculada de quem se defende, da mulher capaz e dura, de armadura negra colada ao corpo.

Por isso, faço-te a vontade, que já te vejo crescer na língua que me estendes.

Lentamente, calço-as, e as mãos assim trajadas transformam-me o corpo em felina, e simulo os gestos que tanto anseias por ver, porque te arrepia a pele de ébano e te transforma em labareda, que me incendeia o desejo. Simulo-me assim, a forte, a má.

E vejo como as tuas mãos te começam a percorrer o peito e os dedos te fogem para esse teu mastro de macho no cio e iniciam o jogo do prazer a que te dedicas, sem pudor, à minha frente, dizendo-me que sou eu quem te faz despertar esse teu génio maroto que te habita. E chamando-me para perto de ti, para que te olhe bem a masturbares-te. Por mim. Para mim.

Devagar, vou para perto. Empurro-te as mãos para longe do mastro erguido, bradando, não tanto para te provocar mas mais porque o meu âmago, que não sentes mas cuja humidade trespassa já as cuecas de renda negra, já me transtorna os sentidos despertos e tento dominar a custo a vontade de me empalar em ti negando-me o prazer do espectáculo.

Vejo, no teu esgar safado, que percebeste o meu gesto, e tentas sentir-me o desejo por debaixo da diminuta roupa. Não te vou deixar! Quero dominar, tenho-as calçadas, as luvas que tanto gostas. Por isso, sinto-me no poder. E a embriaguez leva-me a explorar-te a pele com a lingua destemida, centímetro por centímetro, vendo-te contorcer de ansiedade, desejo, impotência e uma tentativa frustada de me agarrar os mamilos, erectos. Nem penses, hoje és meu, neste momento faço-te sofrer debaixo dos meus beijos, da minha língua, da minha pele que se roça em ti e do meu peito que te busca o contacto desse teu falo, que pressiono e afago.

Gemes, rogas-me, todo tu és suor e paixão e queres-te enfiar em mim e possuir-me e abandonares-te à minha posse. Sim, hoje possuo-te. Podes penetrar-me, mas sou eu quem comanda esta dança.

Com um último beijo, solto-te os braços, que imediatamente encaminham as mãos para o soutien, desprendendo-o com a mestria dos anos em que o conheces, e em seguida me desprendem das cuecas molhadas com o cheiro do meu sexo carente. Carente de ti.

Subo-te, torturo-te um pouco mais, esfregando-te no suco, mostrando o quanto te desejo. Bem o sabes, mas gosto que o sintas assim, pele na pele. Para que saibas que agora e aqui o meu corpo e o teu se farão um só, disfrutando do prazer que acelera o sangue e explode nas sinapses do cérebro.

Enfio-me finalmente em ti, com um grito uníssono das nossas gargantas. Domino-te, peço-te que me sussurres ao ouvido que me queres assim, em ti montada, que me pertence este teu corpo e que queres que o faça desfazer em ondas de desejo. Que te cavalgue. Faço-o, devagar e depressa, devagar e depressa, ao meu ritmo, sabendo que é também assim que preferes, meu amor, que é assim mesmo que juntos vamos saboreando esta nossa dádiva, este receber.

Não me engano, uma vez mais.

Sinto-te o corpo teso por debaixo do meu e a tua voz sumida que me pede que me venha contigo, em ti, por ti, para ti, em simultâneo prazer, e abandono-me a uma última viagem, mais um vai-vém do corpo, mais um arranque, afundo-me toda em ti e.... gritamos abraçados, abafado o grito pelas bocas que se unem no instante final do orgasmo, sinto-te libertares-te em mim, estremece-me o corpo aos repelões, as ancas firmemente agarradas pelas tuas mãos, pressionadas contra ti, somos os dois, somos um, fazemo-nos um, assim...

Paris

Não estava nada à espera daquele situação, mas o sabor agridoce do inesperado e a excitação do completo proibido eram como um vórtice, aguilhoando-lhe o desejo.

Como de costume, vestira-se com um dos severos fatos do pai para assistir à restrita tertúlia literária no Café Parisiense, um antro político disfarçado de respeitável ponto de encontro da sociedade de novos burgueses comerciantes, onde se discutia de tudo um pouco, entre copos da famosa Fada Verde, o absinto, que tinha o condão de embriagar, ao mesmo tempo que clareava os sentidos. A primeira vez que a bebera sentira o coração estalar no peito, de tal o cavalgar veloz e silencioso encetado no momento; no entanto, sabia-se incógnita na reunião literária, disfarçada de homem (sexo a que era permitida a frequência de tais lugares), pelo que guardou silêncio das sensações experimentadas e aparentou uma soberba indiferença à bebida. O estratagema resultou, e desde essa altura começaram as suas excursões nocturnas às tertúlias do Café, onde se embriagava de poesia, fumo e fadas verdes, que lhe dançavam frente aos olhos castanhos e grandes.

Nessa noite, o convidado de honra era um dos seus autores favoritos, que lhe vivia nos sonhos, pelo que tinha mesmo de o ver. Lia escondida no silêncio da noite os livros proibidos e banidos, surripiados da biblioteca do pai, devorando-os enquanto o corpo se excitava com as letras amaciadas pelas páginas.

Acabada a leitura, os homens começaram a dispersar, e ela aproveitara para se aproximar do autor daquelas missivas, falando-lhe. O olhar dele, hipnótico, pareceu atravessar a camisa de linho e deter-se justamente nos seios ainda tímidos, como que tocando-lhes. Seria possível que adivinhasse quem se escondia por detrás daquela máscara?

Seguira-o para uma pequena sala no interior do café, desnorteada e sem se saber senhora da sua vontade.

E fora lá que ele a derrubara sobre o sofá de tecido carcomido junto à parede, com um beijo incendiário que lhe obliterara a consciência e espicaçara o desejo a níveis insuportáveis. Ela queria-o, ó se queria. Sentira desde logo o desejo dele, urgente e másculo, mal escondido por debaixo das finas calças.

Puxara-o para si, abrindo-se, e ele iniciara os gestos de amor desapertando os botões, um a um, da camisa, ao mesmo tempo que os seus dedos lhe afastavam o cinto e abriam o fecho das calças. Desapertou-lhe depois o corpete, hábito do qual ela ainda não havia conseguido libertar-se, por muitos anos de uso que já lhe dera.

Inexperiente nas artes do sexo, ela foi aluna aplicada, aprendendo de cor o que o seu corpo já adivinhava e o desejo lhe sussurrava.

Lançou-lhe a boca ao pescoço e os dedos imitaram o gesto dele, insinuando-se por dentro das calças, encontrando um sexo duro e pronto para a devorar. Tocou-lhe, provocando um suspiro, que ele calou devorando-lhe os lábios.

Nús, olharam-se por um momento breve, após o que ele mergulhou no corpo dela, descobrindo-a. Deteve-se na curva perfeita dos seios, no perfume da barriga lisa, no interior das coxas macias, molhando-lhe o sexo (já húmido) com a língua. Ela, que havia lido histórias consideradas obscenas à sucapa dos pais, não se recordava daquelas artes que a faziam contorcer-se de prazer, mas depressa se deixou navegar pelo limbo da vontade.

Quando a viu fechar os olhos, ele penetrou-a, desvirginando-a com cuidado.

Encheu-se nela, encheu-se dela, guiando-a num mundo de prazer recém aprendido no sofá das traseiras de um qualquer café de Paris.

Juntos, cavalgaram-se até que o momento do orgasmo os uniu para além do espaço e do corpo dormente de gosto, o prazer líquido escorrendo da pele suada, os olhos num brilho demente.